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Uma Boa Cristã - Capítulo 2: Presente de Casamento

Já estou à uma semana inteira mergulhada em relatórios, projeções e históricos financeiros da Helix Dynamics. Quanto mais eu leio, mais entendo o tamanho daquilo. Não é só mais um cliente. Trazer uma empresa desse porte para a carteira da empresa seria… enorme — o tipo de conquista que muda números, posições, reputação. Seria motivo de festa em qualquer lugar. E com isso vem a pressão. Roberto deixou isso claro mais de uma vez. Perder essa conta não é uma opção. Seu gestor, David Diniz, fará uma visita dentro de algumas semanas, e é lá que teremos a oportunidade de firmar de vez esse acordo.

Eu cruzo dados, analiso movimentações, tento antecipar padrões. Sempre que tenho algo minimamente estruturado, levo até ele. Sugestões de abordagem, estratégias de posicionamento, formas de apresentar a empresa como mais do que apenas capital.

Ele parece gostar do que ouve. Mas nunca parece realmente… satisfeito. Sempre falta algo.

“Postura.”

Ele repete isso com frequência, quase como um lembrete constante. E eu ainda não entendo exatamente o que isso significa. Comento isso com Igor em casa, uma noite, enquanto jantamos. Ele dá um meio sorriso.

“O Roberto é assim mesmo. Ele não entrega resposta fácil. Gosta de ver a gente se virando, aprendendo na prática.”

Isso não me ajuda muito. Mas, de alguma forma estranha, só aumenta minha vontade de provar que sou capaz.

Mesmo com toda essa pressão no trabalho, estou feliz porque hoje à noite vou ao culto. Costumo ir várias vezes durante a semana, mas a correria pós viajem e emprego novo tornou as coisas difíceis, será a primeira vez desde que voltamos da lua de mel. Mesmo ainda bastante atarefada, conversei com Igor para darmos um jeito de ir. É importante para mim. Preciso estar na casa do Senhor, ser pastoreada, sentir novamente aquela paz que só a minha comunidade me traz. 

Hoje é quinta-feira. O escritório já está praticamente vazio. Já passaram alguns minutos do fim do expediente, Igor já saiu para jogar futebol com os amigos da igreja, então vou encontrá-lo diretamente lá.

Quase todo mundo já se foi e o silêncio é quase absoluto. Mesmo assim, continuo na minha mesa, inclinada sobre o notebook, revisando mais uma vez um relatório sobre investimentos recentes em empresas extratoras de lantânio no Vietnã. Meus olhos já começam a cansar, acho que já está na hora de ir. Levanto da cadeira e começo a organizar minhas coisas.

Então a porta da sala dele se abre. O som é baixo… mas suficiente. Eu levanto o olhar. Roberto está ali.

O paletó já não está mais no corpo, a gravata levemente afrouxada. Ainda assim, a presença dele preenche o espaço com a mesma intensidade de sempre.

“Sra. Naomi.”

Meu coração reage antes mesmo de eu pensar. Endireito a postura quase automaticamente.

“Senhor.”

“Venha aqui um momento, por favor.”

Assinto, tentando manter a naturalidade, mas esses encontros com ele sempre me deixam tensa.

Entro na sala e começo, antes mesmo que ele diga qualquer coisa:

“Senhor, eu estava analisando padrões de investimento em empresas ligadas a metais raros no sudeste asiático, e percebi que—”

Ele levanta levemente a mão. “Deixe isso para amanhã.”

Eu fecho a boca, um pouco sem graça.

“Claro, senhor.”

Ele me observa por um instante, depois caminha até a mesa e abre uma das gavetas.

“Na verdade, eu te chamei por outro motivo.” Ele tira uma pequena caixa elegante, discreta, com um laço bem feito no topo. “Quero te dar seu presente de casamento.”

Pisco, surpresa.

“Presente…?” Um pequeno sorriso surge, meio sem jeito. “Mas o senhor já nos deu uma geladeira… nem nossos familiares—”

“Isso não foi nada.” Ele interrompe, simples, voltando para onde estou. “Considere isso… algo mais pessoal.” Estende o embrulho na minha direção. 

Eu hesito por um segundo antes de pegar. A caixa é leve. Olho para ela, curiosa. Meus dedos passam de leve pelo laço, sem saber se devo abrir ali.

Levanto o olhar para ele. Mas ele já está se afastando, voltando à sua mesa.

“Está dispensada, Sra. Naomi.” A voz dele volta ao tom profissional. “Tenha uma boa noite.”

Eu travo por um instante. “Obrigada, senhor.”

Saio da sala com a caixa nas mãos, sentindo o peso dela muito maior do que deveria ser. Vou até minha mesa, e olho novamente para o presente. Eu não vou conseguir esperar.

Desfaço o laço com cuidado, o coração batendo um pouco mais rápido. Levanto a tampa—

E fecho no mesmo instante. Rápido, quase em pânico. Olho ao redor, o corpo tenso. Com medo que alguém tenha visto. Mas não tem mais ninguém.

Abro de novo, só o suficiente para confirmar.

É… uma lingerie.




Branca. Um conjunto completo. Delicado… mas longe de ser inocente. Meias 7/8  também estão na caixa, e um acessório que eu nem sei direito como se utiliza.

Observo a calcinha com mais atenção. É naquele estilo que as prostitutas costumam usar.

Engulo seco. Por que ele me daria isso? Minha mente corre. Ele está… dando em cima de mim? Devo voltar lá e reclamar? Não. Não tenho coragem. Devo contar ao Igor? Claro que devo. Ele vai saber o que fazer.

Minhas mãos estão levemente trêmulas quando fecho a caixa novamente. Respiro fundo, tentando me acalmar.

Igor já saiu, mas mais tarde vamos nos encontrar no culto. Falo com ele lá.

Guardo o embrulho na minha bolsa e saio do escritório às pressas.

O ar da rua bate no meu rosto quando deixo o prédio… mas não ameniza a sensação estranha de calor que ficou comigo.



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Comentários

  1. Muito interessante o conto, estou adorando

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  2. Estamos todas se perguntando, quando que vai começar a sacanagem?

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  3. Zur, as meninas só pensam na putaria kkkk

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  4. Cara, a Zur tem o Dom, como consegue escrever tão bem e nos.prender deste jeito? parabéns amiga.

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  5. Já esperando a atualização. 😜

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